Realeira

Célula especial construída pelas abelhas para criar uma nova rainha, maior e com formato diferente das células comuns do favo.

Realeira

A realeira é uma célula especial construída pelas abelhas exclusivamente para criar novas rainhas. Diferente das células hexagonais comuns dos favos, a realeira tem formato cilíndrico ou de bolota, com tamanho muito maior e paredes mais espessas feitas de cera. Sua presença na colmeia é um sinal importante que o apicultor deve observar com atenção, pois indica que a colônia está se preparando para produzir uma nova rainha — seja por impulso de enxameação, por substituição natural da rainha velha ou por necessidade de emergência diante da perda inesperada da rainha atual.

O Que É

A realeira é, em termos simples, o “berço real” da colônia. Enquanto as células normais do favo medem cerca de 5 mm de diâmetro e são construídas na horizontal, a realeira mede de 20 a 25 mm de comprimento e é construída na vertical, com a abertura voltada para baixo. Seu formato lembra uma bolota de amendoim ou um dedal, com paredes texturizadas e mais robustas que as células comuns. Internamente, a realeira é preenchida com uma quantidade generosa de geleia real — o alimento exclusivo que desencadeia o desenvolvimento reprodutivo completo da larva, transformando-a em rainha.

A realeira não é uma estrutura permanente da colmeia. Ela é construída pelas obreiras quando há necessidade de criar uma nova rainha e é destruída ou removida após o nascimento da rainha ou quando o impulso de criação é interrompido. A construção de realeiras é um comportamento coletivo e coordenado, resultado da interação complexa entre os feromônios da rainha, as condições da colônia e os estímulos ambientais.

História e Contexto no Brasil

O conhecimento sobre as realeiras acompanha a história da apicultura. Já nos escritos de apicultores europeus dos séculos XVII e XVIII encontram-se descrições das “células reais” e sua relação com a produção de novas rainhas. No entanto, somente com o advento da colmeia de quadros móveis, desenvolvida por Langstroth em 1851, tornou-se possível inspecionar os favos sem destruí-los e, assim, identificar e manejar as realeiras de forma sistemática.

No Brasil, a compreensão e o manejo das realeiras ganharam importância especial após a africanização do plantel apícola na década de 1960. As abelhas africanizadas apresentam uma tendência natural à enxameação muito mais acentuada que as linhagens europeias, o que significa que produzem realeiras de enxameação com maior frequência. Apicultores brasileiros precisaram desenvolver técnicas adaptadas para lidar com essa característica, incluindo a inspeção regular dos favos para identificar realeiras e a divisão preventiva de colônias populosas. Essas práticas são detalhadas em nosso guia sobre como começar na apicultura no Brasil.

Na meliponicultura, a situação é diferente. As abelhas sem ferrão do gênero Melipona, como a uruçu e a mandaçaia, não constroem realeiras. Nessas espécies, a determinação de casta é genética — rainhas podem nascer de qualquer célula comum do favo, sem necessidade de alimentação diferenciada. Já em outros gêneros de meliponíneos, como Trigona, as abelhas constroem células reais maiores, semelhantes em conceito às realeiras de Apis mellifera. Para mais informações sobre essas diferenças, consulte nosso guia de meliponicultura.

Como Funciona na Prática

Existem três tipos de realeiras, cada uma com significado e consequências diferentes para o manejo da colônia:

Realeiras de enxameação são construídas na borda inferior dos favos, geralmente em número de 5 a 20 ou mais, em formato de “bolota de amendoim” pendente. Sua presença indica que a colônia está superpopulosa, com abundância de recursos e forte impulso reprodutivo. A colônia está planejando se dividir: a rainha velha partirá com parte das operárias (o enxame primário), enquanto uma nova rainha emergirá das realeiras para assumir a colônia original. O apicultor que encontra realeiras de enxameação deve agir rapidamente — seja removendo as realeiras para adiar a enxameação, seja aproveitando a situação para fazer divisões controladas e criar núcleos.

Realeiras de substituição (supersedura) são construídas no meio do favo, geralmente em número reduzido (1 a 3). Indicam que a rainha atual está envelhecida, com declínio na postura ou na produção de feromônios. Diferente da enxameação, a supersedura não resulta em divisão da colônia — a rainha velha e a nova podem coexistir brevemente até que a mais jovem assuma a postura. Muitas vezes, esse processo passa despercebido pelo apicultor.

Realeiras de emergência são construídas de forma apressada quando a rainha morre ou desaparece inesperadamente. As obreiras selecionam larvas jovens (de até 3 dias de idade) já existentes em células comuns de operárias e as transformam em realeiras, ampliando a célula original e alimentando a larva exclusivamente com geleia real. Essas realeiras podem ser identificadas por estarem no meio do padrão de cria, diferindo das de enxameação (na borda inferior) e das de supersedura (mais isoladas). As rainhas de emergência podem ser de qualidade inferior, pois a larva pode ter recebido alimentação de operária nos primeiros dias de vida.

O desenvolvimento dentro da realeira segue etapas precisas. Uma larva jovem selecionada recebe geleia real em abundância. A realeira é operculada (fechada com uma tampa de cera) pelas operárias quando a larva completa sua fase de alimentação. Dentro da célula selada, a larva tece um casulo, passa pelo estágio de pupa e completa sua metamorfose. O ciclo total, do ovo ao nascimento da rainha adulta, leva aproximadamente 16 dias — 3 dias de ovo, 5 dias de larva alimentada e 8 dias de pupa operculada.

Ao emergir, a nova rainha abre a ponta da realeira com suas mandíbulas. Em seguida, procura e destrói as demais realeiras que ainda não eclodiram, matando as rivais com seu ferrão. Se duas rainhas emergirem ao mesmo tempo, travam um combate mortal até que uma prevaleça. Em situações de enxameação avançada, quando a rainha velha já partiu com o enxame primário, enxames secundários podem partir com rainhas virgens adicionais.

Importância para a Apicultura e Meliponicultura

Saber identificar e interpretar as realeiras é uma das habilidades mais essenciais para o apicultor. A presença de realeiras durante a inspeção dos quadros fornece informações valiosas sobre o estado da colônia e permite ao apicultor tomar decisões de manejo fundamentadas:

A identificação de realeiras de enxameação permite agir preventivamente para evitar a perda de enxames. O apicultor pode dividir a colônia de forma controlada, transferindo quadros com realeiras maduras para formar novos núcleos, multiplicando o apiário de forma planejada em vez de perder abelhas para enxameação selvagem.

As realeiras também são fundamentais para a produção de rainhas. Apicultores especializados utilizam técnicas como a enxertia larval (transferência de larvas jovens para cúpulas artificiais que simulam realeiras) para produzir rainhas selecionadas em grande quantidade. Essa técnica, combinada com o uso de colônias iniciadoras e terminadoras, permite a produção comercial de rainhas de alta qualidade genética.

Para o apicultor iniciante, a recomendação é aprender a inspecionar os quadros regularmente, especialmente na primavera e no início do verão, quando a tendência à enxameação é maior. Nosso artigo sobre equipamentos de apicultura para iniciantes orienta sobre as ferramentas necessárias para realizar essas inspeções com segurança. Compreender o ciclo reprodutivo completo, desde a construção da realeira até o voo nupcial da nova rainha, é fundamental para um manejo eficiente.

Termos Relacionados

  • Rainha — a abelha adulta que se desenvolve dentro da realeira.
  • Larva — o estágio de desenvolvimento da abelha alimentado com geleia real dentro da realeira.
  • Enxame — a divisão natural da colônia, frequentemente associada à presença de realeiras de enxameação.
  • Núcleo — pequena colônia formada com quadros contendo realeiras.
  • Favos — a estrutura de cera onde as realeiras são construídas.
  • Geleia Real — o alimento exclusivo que transforma a larva em rainha dentro da realeira.

Perguntas Frequentes

Devo destruir as realeiras que encontro na colmeia? Depende do contexto. Se você deseja evitar a enxameação e não quer multiplicar colônias, pode remover as realeiras — mas saiba que a colônia pode reconstruí-las rapidamente se as condições persistirem. Se deseja multiplicar o apiário, aproveite as realeiras para formar núcleos. Se forem realeiras de supersedura, geralmente é melhor deixar que o processo natural siga seu curso, pois a colônia está substituindo uma rainha deficiente.

Quantas realeiras uma colônia pode construir? Em situações de enxameação, uma colônia forte pode construir de 10 a 30 realeiras ou mais. Em supersedura, geralmente são construídas 1 a 3. Em emergência, a quantidade depende da disponibilidade de larvas jovens, podendo variar de 3 a 15.

Quanto tempo leva para a rainha nascer da realeira? O ciclo completo do ovo à rainha adulta leva 16 dias. A realeira é operculada por volta do 8o dia após a postura do ovo, e a rainha emerge aproximadamente 8 dias depois da operculação.

Posso transferir realeiras entre colmeias? Sim, essa é uma prática comum e recomendada. Realeiras maduras (operculadas, próximas à emergência) podem ser cuidadosamente retiradas do favo e introduzidas em colônias órfãs ou em núcleos recém-formados. O cuidado principal é não sacudir, inverter ou expor a realeira a temperaturas extremas durante o transporte.