Melgueira
A melgueira é o módulo superior da colmeia racional destinado exclusivamente ao armazenamento de mel pelas abelhas. Separada do ninho por uma tela excluidora que impede a passagem da rainha, a melgueira permite que o apicultor colha o mel sem interferir na área de cria da colônia. É um componente essencial do sistema de colmeia Langstroth e de outros modelos de colmeia racional utilizados na apicultura brasileira.
O Que É
A melgueira é uma caixa retangular, geralmente construída em madeira, que contém quadros móveis onde as abelhas constroem favos de cera para armazenar o mel excedente. No sistema Langstroth, que é o mais utilizado no Brasil, a melgueira tem as mesmas dimensões de comprimento e largura do ninho, mas pode ter altura variável. Existem dois tamanhos principais: a melgueira padrão (ou inteira), com a mesma altura do ninho (aproximadamente 24 cm), e a meia-melgueira (ou sobre-ninho), com cerca de 14,5 cm de altura.
A tela excluidora, posicionada entre o ninho e a melgueira, é um dispositivo feito de arame ou plástico com espaçamentos calibrados que permitem a passagem das obreiras, mas impedem que a rainha, de abdômen mais volumoso, suba para a melgueira. Isso garante que não haja postura de ovos na área de armazenamento de mel, facilitando a colheita e mantendo a pureza do produto.
Cada melgueira padrão do sistema Langstroth comporta nove ou dez quadros, dependendo do espaçamento adotado. Esses quadros são equipados com lâminas de cera alveolada, que servem como base para a construção dos favos pelas abelhas. Quando o fluxo de néctar é abundante e a colônia está forte, as abelhas podem preencher uma melgueira em poucos dias, depositando e processando o néctar até transformá-lo em mel maduro.
História e Contexto no Brasil
O conceito de separar a área de produção de mel da área de cria remonta à invenção da colmeia de quadros móveis pelo reverendo Lorenzo Langstroth em 1851. Antes dessa inovação, a colheita de mel implicava frequentemente na destruição dos favos e até da colônia inteira. Com a introdução dos módulos empilháveis, os apicultores puderam pela primeira vez colher mel de forma seletiva, retirando apenas os quadros maduros sem perturbar a área de cria.
No Brasil, a adoção da melgueira como componente padrão do sistema apícola acompanhou a difusão da colmeia Langstroth, que se intensificou a partir da década de 1960, após a africanização do plantel apícola. As abelhas africanizadas, mais produtivas que as europeias em condições tropicais, demandaram melgueiras em maior quantidade, impulsionando a indústria de fabricação de equipamentos apícolas no país.
A evolução do uso da melgueira no Brasil também refletiu as adaptações necessárias ao clima tropical. Enquanto em países de clima temperado as melgueiras são utilizadas apenas durante a temporada de florada (primavera e verão), em muitas regiões brasileiras, especialmente no Nordeste, as floradas podem ocorrer em diferentes épocas do ano, exigindo que o apicultor mantenha melgueiras disponíveis em períodos variados. O conhecimento detalhado da flora apícola local é essencial para saber quando adicionar ou retirar melgueiras.
A padronização das melgueiras facilitou enormemente a cadeia produtiva apícola brasileira. Com dimensões uniformes, tornou-se possível a intercambialidade de equipamentos entre diferentes apicultores, a mecanização parcial do processo de extração e o desenvolvimento de cooperativas e entrepostos de beneficiamento que atendem a vários produtores de uma mesma região.
Como Funciona na Prática
O manejo das melgueiras é uma das atividades centrais do calendário apícola e exige planejamento e atenção do apicultor. O ciclo começa com a preparação das melgueiras antes da florada principal. Os quadros devem estar em boas condições, com a cera alveolada íntegra ou, idealmente, com favos já puxados (construídos pelas abelhas em temporadas anteriores), que economizam o trabalho das abelhas e aceleram o enchimento.
A colocação das melgueiras nas colmeias deve ser feita no início do fluxo de néctar, quando as abelhas começam a armazenar mel em quantidade. Um dos erros mais comuns de apicultores iniciantes é colocar as melgueiras cedo demais ou tarde demais. Quando colocada precocemente, a melgueira pode resfriar o ninho em regiões de clima frio. Quando adicionada tardiamente, a colônia pode iniciar a construção de favos irregulares no espaço disponível ou até enxamear por falta de espaço. É por isso que consultar um guia para iniciantes pode evitar esses erros.
O apicultor deve monitorar regularmente o preenchimento das melgueiras durante o fluxo de néctar. Quando cerca de 75% das células dos quadros estão operculadas, ou seja, seladas com uma camada fina de cera pelas abelhas, o mel é considerado maduro e pronto para a colheita. A operculação indica que o mel atingiu o teor de umidade adequado (abaixo de 20%), garantindo sua conservação.
Para colmeias muito produtivas, é possível empilhar duas ou até três melgueiras. A adição de melgueiras adicionais deve ser feita posicionando a nova melgueira entre o ninho e a melgueira já em uso (intercalando), ou sobre a última melgueira (sobrepondo). A técnica de intercalar estimula as abelhas a subirem e preencherem mais rapidamente a nova melgueira, mas exige mais trabalho do apicultor.
A retirada das melgueiras para a colheita é feita com o auxílio do fumigador e de outros equipamentos de proteção. O apicultor aplica fumaça na melgueira para acalmar as abelhas e facilitar a remoção. Algumas técnicas complementares incluem o uso de escape-abelha, um dispositivo colocado entre a melgueira e o ninho que permite a saída das abelhas da melgueira mas impede seu retorno, esvaziando a melgueira de abelhas em 24 a 48 horas sem necessidade de escovação manual.
Após a extração do mel por centrifugação, os quadros vazios são devolvidos às colmeias para serem reutilizados. Quadros “puxados” (com favos já construídos) são muito valiosos, pois as abelhas não precisam investir energia e cera na construção de novos favos, podendo concentrar seus esforços na coleta e armazenamento de mel. A conservação adequada das melgueiras e quadros fora da temporada, protegidos contra traças de cera e outros insetos, é fundamental para preservar esse patrimônio.
A escolha entre melgueira padrão e meia-melgueira depende de diversos fatores. A meia-melgueira, quando cheia de mel, pesa cerca de 10 a 12 quilos, enquanto a melgueira padrão cheia pode ultrapassar 25 quilos. Por esse motivo, muitos apicultores preferem a meia-melgueira, especialmente quando trabalham sozinhos ou em terrenos acidentados. Por outro lado, a melgueira padrão requer menos manipulação por volume de mel produzido e possibilita a intercambiabilidade dos quadros com o ninho.
Importância para a Apicultura e Meliponicultura
A melgueira é o componente da colmeia que materializa a produção apícola. Sem ela, a colheita de mel de forma racional e sustentável seria impossível. A separação entre área de cria e área de produção é um princípio fundamental da apicultura moderna, pois permite a colheita do mel excedente sem comprometer as reservas alimentares da colônia e sem destruir as crias em desenvolvimento.
Do ponto de vista econômico, a gestão eficiente das melgueiras impacta diretamente a rentabilidade do apiário. Apicultores que dominam o manejo das melgueiras, adicionando-as e retirando-as nos momentos corretos, conseguem maximizar a produção de mel e a qualidade do produto. A colheita no ponto ideal de maturação resulta em mel com baixa umidade, resistente à fermentação e com as melhores características organolépticas.
A utilização correta das melgueiras também é importante para a saúde das colônias. Colmeias superlotadas, sem espaço adequado para armazenamento, podem desencadear o comportamento de enxameação, quando parte da colônia abandona a colmeia com a rainha velha em busca de um novo local de moradia. O enxame resultante representa perda produtiva para o apicultor. A adição oportuna de melgueiras oferece espaço para o crescimento da colônia e reduz a tendência à enxameação.
No contexto da meliponicultura, o conceito de melgueira é adaptado para as abelhas sem ferrão. Nas caixas racionais para meliponíneos, como as utilizadas para mandaçaia, jataí e uruçu, existe uma separação entre o ninho (onde ficam os favos de cria) e a sobrecaixa ou melgueira (onde ficam os potes de mel). Essa separação facilita a colheita sem perturbar a área de cria, seguindo o mesmo princípio da melgueira na apicultura com abelhas Apis.
A qualidade da madeira e a construção das melgueiras influenciam diretamente a durabilidade e a eficiência do equipamento. Madeiras resistentes à umidade e a insetos xilófagos, como o cedro e o pinus tratado, são as mais utilizadas. As junções devem ser firmes para evitar frestas que permitam a entrada de pragas ou a perda de calor. O investimento em melgueiras de qualidade se paga ao longo do tempo pela sua durabilidade e pela melhor produção obtida.
Para apicultores que estão montando seus primeiros apiários, é recomendável ter pelo menos duas melgueiras por colmeia, de modo que, enquanto uma está na colmeia sendo preenchida pelas abelhas, a outra pode estar no entreposto sendo processada ou armazenada. Essa logística permite um fluxo contínuo de produção durante toda a temporada de florada, maximizando o aproveitamento do potencial produtivo das colônias. A legislação apícola também estabelece requisitos para o local de extração e beneficiamento do mel.
Termos Relacionados
- Colmeia: estrutura completa que abriga a colônia de abelhas, da qual a melgueira é um dos módulos.
- Ninho: módulo inferior da colmeia onde a rainha realiza a postura e onde se desenvolvem as crias.
- Quadro: moldura que sustenta os favos de cera dentro da melgueira e do ninho.
- Langstroth: modelo de colmeia mais utilizado mundialmente, do qual a melgueira é componente essencial.
- Mel: produto armazenado pelas abelhas nas células dos favos da melgueira.
- Opercular: ato de selar as células com cera, indicando que o mel está maduro para colheita.
- Cera: substância produzida pelas abelhas para construir os favos e selar as células de mel.
Perguntas Frequentes
Quando devo colocar a melgueira na colmeia? A melgueira deve ser adicionada quando a colônia está forte (com o ninho bem populado e com bastante cria) e quando se aproxima ou já iniciou um período de florada abundante. Um indicador prático é observar se as abelhas estão começando a armazenar mel nas laterais dos quadros do ninho, sinalizando que precisam de mais espaço.
Posso colocar mais de uma melgueira por colmeia? Sim. Colônias fortes em épocas de grande fluxo de néctar podem ocupar duas, três ou até mais melgueiras. A quantidade depende da força da colônia e da intensidade da florada na região. Adicione uma nova melgueira quando a anterior estiver aproximadamente 70% preenchida.
Qual a diferença entre melgueira padrão e meia-melgueira? A melgueira padrão tem a mesma altura do ninho (cerca de 24 cm) e comporta quadros do mesmo tamanho. A meia-melgueira tem aproximadamente metade dessa altura (14,5 cm) e utiliza quadros menores. A meia-melgueira cheia é mais leve e fácil de manusear, o que a torna preferida por muitos apicultores.
O que é a tela excluidora e por que ela é importante? A tela excluidora é um dispositivo com aberturas calibradas, posicionado entre o ninho e a melgueira. Suas aberturas permitem a passagem das obreiras, mas bloqueiam a rainha, cujo abdômen é mais largo. Isso impede que a rainha suba e faça postura na melgueira, garantindo que o mel colhido esteja livre de crias.
Como armazenar as melgueiras fora da temporada? As melgueiras devem ser armazenadas em local limpo, seco e ventilado, protegidas contra traças de cera, formigas e roedores. Algumas técnicas de conservação incluem o empilhamento em câmaras vedadas com enxofre ou o congelamento dos quadros antes do armazenamento. Quadros com favos já construídos devem ser especialmente bem conservados, pois representam grande economia de trabalho para as abelhas na próxima temporada.