A enxameação é um dos processos mais naturais e fascinantes da biologia das abelhas — mas também é uma das maiores preocupações de quem trabalha com apicultura. Quando uma colônia enxameia, metade ou mais das abelhas abandona a colmeia junto com a rainha velha em busca de um novo lar. Para o apicultor, isso significa perda de população, queda na produção de mel e, em muitos casos, o enfraquecimento da colônia remanescente. Por outro lado, entender a enxameação é essencial para multiplicar enxames de forma controlada e fortalecer o apiário.
Neste guia, vamos explicar por que as abelhas enxameiam, como identificar os sinais antes que aconteça e quais técnicas o apicultor brasileiro pode usar para prevenir ou manejar a enxameação de forma produtiva.
O Que É Enxameação e Por Que Acontece
A enxameação é o mecanismo natural de reprodução das colônias de abelhas. Assim como um organismo individual se reproduz, a colônia — que funciona como um superorganismo — se reproduz dividindo-se em duas. A rainha velha parte com aproximadamente metade das obreiras e uma quantidade generosa de mel no papo, enquanto a colônia original cria uma nova rainha a partir de realeiras.
Causas principais da enxameação
Diversos fatores desencadeiam o instinto de enxameação:
- Superpopulação: quando a colmeia fica lotada e não há mais espaço para postura, armazenamento de mel e movimentação das abelhas
- Redução do feromônio da rainha: em colônias muito populosas, o feromônio real não alcança todas as obreiras, sinalizando que a colônia está “grande demais”
- Rainha velha ou debilitada: rainhas com mais de dois anos produzem menos feromônio e postam menos ovos, estimulando a construção de realeiras
- Superaquecimento: ventilação insuficiente na colmeia, especialmente em regiões quentes do Brasil
- Genética: algumas linhagens de abelhas africanizadas têm tendência maior à enxameação que outras
- Abundância de alimento: períodos de florada intensa com muito néctar e pólen disponível aceleram o crescimento populacional
Época de maior ocorrência no Brasil
No Brasil, a enxameação é mais frequente na primavera e no início do verão (setembro a dezembro), quando as floradas estão em alta e as colônias crescem rapidamente. Nas regiões Norte e Nordeste, onde o clima é mais quente o ano todo, a enxameação pode ocorrer em praticamente qualquer mês. No Sul e Sudeste, concentra-se nos meses mais quentes, coincidindo com a principal safra de mel.
Como Identificar Sinais de Enxameação
O apicultor atento consegue identificar sinais de que uma colônia está se preparando para enxamear dias ou até semanas antes do evento. As inspeções regulares são fundamentais — e esse é um dos motivos pelos quais o manejo adequado da colmeia é tão importante.
Sinais precoces (1-3 semanas antes)
- Construção de realeiras: a presença de realeiras nas bordas e na parte inferior dos favos é o sinal mais claro. Realeiras de enxameação geralmente ficam na borda inferior dos quadros, diferentemente das realeiras de emergência (no meio do favo)
- Aumento de zangões: a colônia passa a produzir mais zangões e a construir favos com alvéolos maiores para crias de macho, preparando o voo nupcial da futura rainha
- Falta de espaço para postura: a rainha começa a reduzir a postura porque não há mais alvéolos vazios disponíveis
- Redução na construção de cera: as obreiras param de puxar cera nos quadros vazios, indicando que a colônia “decidiu” investir energia na divisão
Sinais imediatos (1-3 dias antes)
- Abelhas penduradas na entrada: formação de “barba de abelhas” na frente da colmeia, com obreiras se aglomerando do lado de fora
- Rainha com abdômen reduzido: as obreiras reduzem a alimentação da rainha para que ela fique mais leve e consiga voar
- Agitação geral: aumento de zumbido e movimentação frenética dentro da colmeia
- Colmeia pesada: os favos estão repletos de mel e pólen, sem espaço para novas crias
Técnicas de Prevenção da Enxameação
Prevenir a enxameação é mais eficiente do que tentar capturar um enxame depois que ele já saiu. As técnicas a seguir são usadas por apicultores brasileiros com sucesso comprovado.
1. Ampliar o espaço da colmeia
A medida mais básica e eficaz é garantir que a colônia tenha espaço suficiente. Em colmeias Langstroth, isso significa adicionar melgueiras antes que a colmeia fique lotada. A regra prática é: quando 70% dos quadros estiverem cobertos de abelhas, é hora de adicionar uma melgueira.
Para quem trabalha com colmeias top-bar ou INPA, a lógica é a mesma — desloque a barra divisória para oferecer mais espaço de construção.
2. Trocar a rainha regularmente
Rainhas jovens (menos de dois anos) enxameiam muito menos que rainhas velhas. A troca regular de rainhas é uma das ferramentas mais poderosas para reduzir a enxameação. Rainhas selecionadas de linhagens com menor tendência à enxameação trazem benefícios adicionais.
3. Destruir realeiras de enxameação
Nas inspeções, se encontrar realeiras nas bordas dos favos, o apicultor pode removê-las antes que estejam maduras. Porém, atenção: se a colônia já estiver em processo avançado de enxameação, destruir as realeiras pode deixá-la órfã, pois a rainha original pode já ter reduzido a postura significativamente. Essa técnica funciona melhor como medida preventiva, não emergencial.
4. Fazer divisões controladas
Em vez de esperar que a colônia enxameie naturalmente, o apicultor pode antecipar-se fazendo divisões planejadas. Retirar 3-4 quadros de cria com abelhas aderentes para formar um núcleo alivia a pressão populacional e permite multiplicar o apiário de forma controlada.
5. Melhorar a ventilação
No Brasil, especialmente em regiões quentes como Nordeste e Centro-Oeste, o superaquecimento é um gatilho importante. Algumas medidas simples ajudam:
- Posicionar as colmeias em locais com sombra parcial (evitar sol pleno o dia todo)
- Usar fundos telados ou ventilados
- Garantir que a entrada da colmeia esteja desobstruída
- Elevar ligeiramente a tampa para criar corrente de ar em dias muito quentes
6. Extrair mel no momento certo
Colmeias com melgueiras cheias e sem espaço para armazenamento estimulam a enxameação. A colheita de mel no momento correto não apenas maximiza a produção, mas também libera espaço para a colônia continuar trabalhando.
Como Manejar a Enxameação de Forma Produtiva
Nem sempre a enxameação é indesejável. Para o apicultor que deseja multiplicar seu apiário, a enxameação controlada é uma ferramenta valiosa.
Captura de enxames
Se um enxame já saiu da colmeia, ele geralmente pousa em um galho, poste ou parede a poucos metros do apiário. Nesse momento, o enxame está relativamente dócil — as abelhas estão com o papo cheio de mel e sem favos para defender. O apicultor pode:
- Preparar uma caixa-isca ou uma colmeia com quadros e cera alveolada
- Pulverizar o enxame com água açucarada levemente para acalmar as abelhas
- Sacudir ou escovar as abelhas para dentro da nova caixa, certificando-se de que a rainha foi incluída
- Fechar parcialmente a entrada e transportar para o local definitivo ao anoitecer
Caixas-isca para captura passiva
As caixas-isca são uma forma prática de capturar enxames que escaparam — do seu apiário ou de colônias silvestres. Posicione-as em locais elevados (2-3 metros), com a entrada voltada para leste e protegidas da chuva. O uso de própolis ou cera velha no interior atrai enxames exploradores. Nas regiões com abelhas africanizadas abundantes, a taxa de sucesso pode ser bastante alta, especialmente na primavera.
Divisão artificial como alternativa
A divisão artificial é uma forma de “enxameação controlada” feita pelo apicultor. A técnica básica consiste em:
- Selecionar uma colônia forte e populosa
- Retirar 3-5 quadros de cria operculada com abelhas aderentes
- Transferir para uma nova caixa com quadros de cera alveolada
- Se houver realeira madura, incluí-la; caso contrário, introduzir uma rainha fecundada
- Posicionar o núcleo a pelo menos 3 km do apiário original (ou fechar a entrada por 48h com tela se ficar no mesmo apiário)
Essa técnica é mais confiável que esperar pela enxameação natural e permite ao apicultor escolher a genética e o momento da multiplicação.
Enxameação em Abelhas Sem Ferrão
A enxameação nas abelhas sem ferrão — como jataí, mandaçaia e uruçu — funciona de maneira muito diferente da enxameação de Apis mellifera. Na meliponicultura, a divisão natural é mais gradual: as abelhas constroem um novo ninho próximo ao original e transferem recursos aos poucos ao longo de semanas ou meses. A rainha jovem fecundada migra para o novo ninho, enquanto a rainha mãe permanece na colônia original.
Para multiplicar colônias de abelhas sem ferrão, o meliponicultor utiliza a divisão de caixas racionais, transferindo discos de cria maduros e potes de alimento para um novo meliponário. Cada espécie tem particularidades — a proteção das colmeias no frio e a alimentação suplementar são cuidados essenciais para que as colônias divididas sobrevivam.
Erros Comuns no Manejo da Enxameação
Mesmo apicultores experientes cometem erros ao lidar com a enxameação:
- Destruir realeiras sem resolver a causa: se a colônia está superlotada, destruir realeiras apenas adia o problema — as abelhas construirão novas em poucos dias
- Não inspecionar regularmente: inspeções a cada 7-10 dias na primavera são fundamentais para detectar sinais precoces
- Ignorar a ventilação: especialmente no Brasil tropical, o calor excessivo é um gatilho subestimado
- Dividir colônias fracas: a divisão só deve ser feita em colônias fortes, com pelo menos 8 quadros bem cobertos de abelhas
- Não fornecer alimentação após divisão: colônias recém-divididas podem precisar de alimentação artificial até se estabilizarem
Perguntas Frequentes
A enxameação prejudica a produção de mel?
Sim, significativamente. Uma colônia que enxameou pode ter sua produção reduzida em 50-70% naquela safra, pois perde metade da população e leva semanas até a nova rainha começar a botar.
Posso impedir totalmente a enxameação?
Não é possível eliminá-la completamente, pois é um instinto biológico. Mas com manejo adequado — espaço, rainha jovem, ventilação e divisões preventivas — é possível reduzir drasticamente a ocorrência.
Enxames capturados são produtivos?
Sim, enxames capturados se estabelecem rapidamente quando alojados em colmeias com cera alveolada e em boas condições. Em geral, começam a produzir mel na mesma safra se capturados no início da primavera.
Qual a diferença entre enxameação e abandono de colmeia?
Na enxameação, a colônia se divide — uma parte fica e outra sai. No abandono (ou absconding), toda a colônia abandona a colmeia, geralmente por condições adversas como falta de alimento, excesso de calor, infestação de pragas ou perturbação constante. O abandono é mais comum com abelhas africanizadas em situações de estresse e requer investigar as causas para evitar recorrência. Conheça mais sobre doenças e pragas que podem motivar o abandono.
A enxameação faz parte da natureza das abelhas e, quando bem compreendida, pode ser transformada em aliada do apicultor. Com inspeções regulares, manejo preventivo e técnicas de divisão controlada, é possível manter o apiário produtivo e ainda multiplicar o número de colônias. Para quem está começando, entender esse processo é um passo fundamental na jornada da apicultura no Brasil.