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title: "Doenças e Pragas nas Colmeias: Prevenção e Tratamento"
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description: "Guia completo sobre as principais doenças e pragas que afetam colmeias no Brasil: varroa, nosema, loques, traça-da-cera, formigas e estratégias de controle integrado."
date: "2026-03-14"
author: "Equipe Apiculturar"
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# Doenças e Pragas nas Colmeias: Prevenção e Tratamento

Guia completo sobre as principais doenças e pragas que afetam colmeias no Brasil: varroa, nosema, loques, traça-da-cera, formigas e estratégias de controle integrado.


Uma colmeia saudável é o alicerce de uma apicultura produtiva e sustentável. Mas manter as abelhas com saúde plena é um desafio constante: parasitas, bactérias, fungos e pragas de toda sorte ameaçam as colônias ao longo do ano. Conhecer os inimigos das abelhas — identificar seus sintomas, entender sua biologia e saber como agir — é uma das competências mais críticas para qualquer apicultor ou meliponicultor brasileiro.

Neste guia, vamos abordar as principais doenças e pragas que afetam colmeias no Brasil, com foco em reconhecimento, prevenção e tratamento baseado em evidências científicas e nas melhores práticas do manejo integrado.

## Varroa: O Principal Parasita das Colmeias de Apis

### O Que É

A *Varroa destructor* é um ácaro ectoparasita que infesta colônias de *Apis mellifera* em quase todo o mundo. Originária da Ásia, onde parasitava a abelha asiática *Apis cerana* sem causar grandes problemas, a varroa encontrou nas abelhas europeias e africanizadas um hospedeiro para o qual não tinha resistência natural.

No Brasil, a situação é relativamente melhor do que em países europeus e norte-americanos: a abelha africanizada, pela sua origem tropical e comportamento de enxameação frequente, desenvolveu certa tolerância ao ácaro. Ainda assim, altas infestações causam perdas significativas de produção e podem levar colônias ao colapso.

### Ciclo de Vida e Sintomas

A varroa se reproduz exclusivamente dentro das células operculadas (fechadas) de cria, especialmente as de zangões (que têm período de operculação mais longo). A fêmea adulta entra na célula pouco antes da operculação, se alimenta da hemolinfa da larva e deposita ovos que se desenvolvem em novos ácaros antes da emergência da abelha adulta.

Sintomas de infestação por varroa:

- Abelhas adultas com asas deformadas (síndrome das asas deformadas, causada pelo vírus DWV transmitido pelo ácaro)
- Crias perfuradas ou com tampas afundadas
- Queda de população mesmo em período de florada
- Presença visível de ácaros avermelhados no corpo das abelhas (em infestações graves)

### Diagnóstico

O monitoramento regular é fundamental. As principais técnicas:

- **Teste do copo d'água com álcool**: uma amostra de cerca de 200 a 300 abelhas adultas é colocada em álcool 70% ou 96% e agitada vigorosamente; os ácaros se desprendem e são contados. Uma infestação acima de 3% exige intervenção.
- **Fundo da colmeia**: um fundo telado com uma grade permite coletar e contar os ácaros que caem naturalmente (queda natural em 24h). Números acima de 20 a 30 ácaros/dia indicam infestação significativa.

### Tratamento

Os tratamentos autorizados no Brasil incluem:

- **Ácido oxálico**: aplicado por gotejamento em abelhas livres de cria ou por sublimação. Muito eficaz contra ácaros forésicos (fora das células). Permitido em apicultura orgânica.
- **Ácido lático**: aplicado por pulverização. Também permitido em orgânicos.
- **Timol**: produto à base de óleo de tomilho, aplicado em vaporizadores. Eficaz, mas sensível à temperatura (funciona melhor entre 15 e 30°C).
- **Amitraz (Apivar)**: produto de síntese química, eficaz mas não permitido em orgânicos. Pode deixar resíduos no mel se mal utilizado.
- **Fluvalinate (Apistan)**: produto de síntese, com crescente problema de resistência do ácaro em muitas regiões do mundo.

O manejo integrado recomenda a rotação de princípios ativos e a combinação com técnicas zootécnicas (interrupção de cria, criação de rainhas resistentes).

## Nosema: A Doença Intestinal das Abelhas

### O Que É

A nosema é causada por fungos microsporidios do gênero *Nosema*: *N. apis* e *N. ceranae*. Ambos infectam o epitélio do intestino médio das abelhas adultas, comprometendo a digestão e reduzindo a expectativa de vida das operárias.

No Brasil, a *N. ceranae* é a espécie predominante e tem sido associada à mortalidade de colônias em regiões de inverno mais rigoroso, onde as abelhas ficam confinadas por períodos longos.

### Sintomas e Diagnóstico

A nosema frequentemente é assintomática ou apresenta sintomas inespecíficos:

- Redução da população sem causa aparente
- Abelhas com abdome distendido, incapazes de voar
- "Disenteria" (fezes líquidas na parte frontal da colmeia) — mais comum na N. apis
- Queda na produção de mel

O diagnóstico definitivo exige exame microscópico de abelhas esmagadas em água: os esporos de nosema são visíveis com aumento de 400x.

### Prevenção e Tratamento

Não existe tratamento aprovado para nosema no Brasil atualmente (o Fumagillin foi proibido por deixar resíduos nos produtos da colmeia). A estratégia centra-se na prevenção:

- Trocar favos velhos regularmente (os esporos sobrevivem anos na cera)
- Garantir ventilação adequada nas colmeias
- Manter colônias fortes e bem alimentadas
- Posicionar as colmeias de forma a evitar umidade excessiva
- Selecionar rainhas de linhagens mais resistentes

## Loque Americana e Loque Europeia

### Loque Americana (*Paenibacillus larvae*)

A loque americana é a doença bacteriana mais temida da apicultura mundial. Causada pela bactéria *Paenibacillus larvae*, afeta exclusivamente as larvas de abelhas, que morrem dentro das células operculadas.

**Sintomas**: tampas afundadas e perfuradas; ao introduzir um palito numa célula infectada e puxar, forma-se um "fio" viscoso e elástico (o teste do palito é o diagnóstico clássico); odor forte e desagradável de cola de peixe podre.

**Perigo real**: os esporos de *P. larvae* são extremamente resistentes, podendo sobreviver no material apícola por décadas. A colmeia infectada pode contaminar outras colônias por meio do mel e do material.

**Tratamento**: no Brasil, não há antibióticos registrados para uso em abelhas. Em casos confirmados, a recomendação do MAPA é a **incineração da colmeia** com todo o material infestado e notificação compulsória ao serviço de defesa agropecuária estadual. Nunca tente "salvar" uma colmeia com loque americana: você estará espalhando a doença.

### Loque Europeia (*Melissococcus plutonius*)

Menos grave que a americana, a loque europeia é causada pela bactéria *Melissococcus plutonius* e afeta larvas menores, antes da operculação. O odor é azedo (vinagre), as larvas morrem em posição estranha dentro da célula e o material não forma fio ao palito.

Colônias fortes frequentemente superam a loque europeia por conta própria. Nos casos mais graves, a substituição da rainha e a alimentação estimulante auxiliam na recuperação.

## Traça-da-Cera (*Galleria mellonella* e *Achroia grisella*)

### O Que É

A traça-da-cera é uma mariposa cujas larvas se alimentam da cera dos favos, destroem o material apícola armazenado e podem devastar colônias enfraquecidas. A espécie maior, *Galleria mellonella*, é a mais agressiva; a menor, *Achroia grisella*, causa danos secundários.

### Sintomas e Danos

- Presença de teias, excrementos (bolinhas escuras) e galerias nos favos
- Favos destruídos com as larvas visíveis dentro das galerias
- Em colônias fracas, as abelhas podem abandonar a colmeia por conta da infestação

### Prevenção e Controle

- Manter colônias fortes (a melhor defesa é uma colônia populosa que defende seu território)
- Reduzir a entrada das colmeias em períodos de fraqueza da colônia
- Armazenar melgueiras e favos em locais frios, ao sol ou com tratamento físico (freezer por 48h mata todas as fases da traça)
- Uso de *Bacillus thuringiensis* var. *aizawai* (produto biológico aprovado) em favos armazenados

## Formigas: O Inimigo Persistente

As formigas são uma das pragas mais comuns e mais irritantes nos meliponários brasileiros. Espécies como a formiga-lava-pés (*Solenopsis invicta*), formigas cortadeiras e diversas formigas onívoras atacam tanto colmeias de *Apis* quanto meliponários, predando as abelhas, saqueando mel e destruindo ninhos.

### Medidas de Controle

- **Suportes com proteção**: os pés dos suportes das caixas devem ser mergulhados em recipientes com óleo mineral ou vaselina, ou protegidos com cola para formigas.
- **Telas protetoras**: ao redor da base dos suportes
- **Isca granulada**: produto específico para formigas, colocado fora do alcance das abelhas e longe da colmeia
- **Limpeza do entorno**: vegetação alta e acúmulo de material orgânico ao redor das colmeias favorecem a presença de formigas

## Outros Inimigos das Colmeias

### Pequeno Besouro das Colmeias (*Aethina tumida*)

Originário da África subsaariana, esse besouro foi detectado no Brasil em 2012 e representa uma ameaça real às colmeias. As larvas se alimentam de mel, pólen e cria, causando a chamada "fermentação" e destruição dos favos. É de notificação obrigatória ao MAPA.

### Crisídeos e Parasitas de Meliponíneos

As meliponíneas têm seus próprios parasitas específicos, como as moscas do gênero *Melaloncha* (parasitas de meliponíneos), que depositam ovos sobre as abelhas e cujas larvas se alimentam do interior da abelha hospedeira.

### Pássaros e Predadores Vertebrados

Alguns pássaros, gambás, tatus e outros mamíferos podem atacar colmeias em busca de mel e larvas. A proteção física das colmeias — altura adequada, proteção da entrada e, quando necessário, cercas — é a melhor solução.

## Programa de Monitoramento Sanitário: A Chave da Prevenção

A melhor estratégia sanitária é a prevenção através do monitoramento constante. Recomenda-se:

- **Vistorias mensais** em cada colmeia, com registro das condições de saúde, população, presença de rainha e sinais de doença
- **Teste de varroa** a cada 3 meses no mínimo, especialmente no período de pré-florada
- **Renovação de favos**: trocar 30% dos favos mais velhos a cada ano
- **Seleção de rainhas**: dar preferência a linhagens com comportamento higiênico comprovado (abelhas que detectam e retiram cria doente dos favos)
- **Quarentena**: nunca introduzir material apícola de origem desconhecida sem período de quarentena

## Conclusão

A sanidade apícola é um trabalho contínuo, que exige atenção, conhecimento e disposição para agir rápido quando necessário. As colmeias saudáveis são colmeias produtivas — e colmeias produtivas são o sustento do apicultor e o motor da polinização que alimenta o planeta. Invista tempo e atenção na saúde das suas abelhas: o retorno vem em forma de mel, de colônias fortes e de uma apicultura que dura gerações.
