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title: "Ascoferiose nas Abelhas: Cria de Giz, Umidade e Manejo no Inverno"
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description: "Guia prático sobre ascoferiose (cria de giz) em abelhas no inverno: causas, sinais, umidade, favos e manejo preventivo em Apis e abelhas sem ferrão."
date: "2026-06-20"
author: "Equipe Apiculturar"
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# Ascoferiose nas Abelhas: Cria de Giz, Umidade e Manejo no Inverno

Guia prático sobre ascoferiose (cria de giz) em abelhas no inverno: causas, sinais, umidade, favos e manejo preventivo em Apis e abelhas sem ferrão.


Ascoferiose é uma daquelas doenças que passa despercebida até o apicultor encontrar múmias brancas, cinzas ou pretas espalhadas pelos favos ou jogadas no fundo da colmeia. Conhecida popularmente como cria de giz, ela ataca a criação de abelhas, não as adultas, e prospera exatamente onde o manejo mais falha: colmeias úmidas, mal ventiladas, com cria doente e população insuficiente para manter a temperatura.

No Brasil, o tema ganha peso no outono e no inverno. Em boa parte do Sul, do Sudeste e das áreas de altitude, as chuvas, as neblinas e as frentes frias prolongadas aumentam a umidade interna da [colmeia](/glossario/colmeia/). Em regiões onde junho e julho trazem noites frias e dias curtos, as abelhas voam menos, dependem mais das reservas internas e ficam mais expostas a qualquer desequilíbrio sanitário.

Este guia explica o que é ascoferiose, quais sinais observar no apiário, por que a umidade é o fator central e quais medidas preventivas fazem sentido para *Apis mellifera* e para abelhas sem ferrão. A lógica é simples: não existe tratamento mágico para cria de giz dentro da colmeia, então o melhor caminho é manejo seco, cria sadia e favos renovados.

## O Que É Ascoferiose

Ascoferiose é uma doença fúngica causada por fungos do gênero *Ascosphaera*, principalmente *Ascosphaera apis* em *Apis mellifera*. O fungo infecta as larvas, ainda dentro dos alvéolos. A larva contaminada morre, mumifica e se transforma em uma massa dura, esbranquiçada ou acinzentada, que se assemelha a um pedaço de giz — daí o nome cria de giz.

As múmias variam de cor conforme o estágio. As brancas costumam indicar micélio jovem; as cinzas e escuras, presença de esporos maduros. Quando o apicultor sacode um quadro com cria doente, ouve-se às vezes um som seco, como de pequenas pedras soltas dentro dos alvéolos.

É importante entender que a ascoferiose ataca a criação, e não diretamente as operárias adultas. O prejuízo aparece de forma indireta: a colônia perde jovens, a população cai, a capacidade de [polinização](/glossario/polinizacao/) e de coleta de néctar diminui e a colmeia entra na florada mais fraca. Por isso, mesmo sem matar a colmeia de uma vez, a doença reduz produtividade e dificulta a recuperação no inverno.

## Por Que o Inverno Aumenta o Risco

O fungo precisa de umidade e de cria estressada para avançar. No inverno brasileiro, três condições se combinam:

1. **Umidade interna elevada**: chuva, neblina e condensação na tampa deixam o ar dentro da caixa úmido. O guia sobre a [tampa da colmeia e infiltração no inverno](/blog/tampa-colmeia-infiltracao-chuva-inverno/) detalha como uma tampa pingando muda todo o ambiente da colmeia.
2. **Cria estressada**: períodos frios reduzindo a capacidade das operárias de aquecer a ninhada favorecem larvas fracas, alvos fáceis para o fungo.
3. **População reduzida**: colônias que entraram no inverno já fracas mantêm pior a temperatura e limparam pior os favos.

Em abelhas sem ferrão, o quadro é semelhante, mas os sintomas aparecem de outra forma. As múmias podem passar despercebidas dentro dos potes e discos de cria de espécies como jataí, mandaçaia e uruçu. O guia sobre [umidade no meliponário no outono e inverno](/blog/umidade-meliponario-outono-inverno/) mostra como o mofo e o excesso de água afetam diretamente a criação das nativas.

Vale observar também que o clima interage com a biologia. Em anos de inverno muito úmido no Sul, com chuvas longas e poucos dias de voo, a pressão de ascoferiose costuma aumentar. Acompanhar previsões confiáveis de frio e chuva ajuda a decidir quando adiar uma inspeção que só esfriaria mais a cria. Um material útil para isso é o acompanhamento de <a href="https://climaetempo.com.br/blog/" target="_blank" rel="noopener noreferrer" onclick="umami.track('portfolio-site-click', { destination: 'climaetempo.com.br' })">previsão e frentes frias no Clima e Tempo</a>, que ajuda a não abrir caixas na pior hora.

## Sinais de Suspeita no Apiário

A ascoferiose raramente aparece de um dia para o outro como uma crise. Ela avança aos poucos, e os sinais costumam ser discretos. Alguns alertas que merecem registro:

- múmias brancas, cinzas ou pretas sobre a tela de fundo ou no alvado;
- larvas mumificadas dentro dos alvéolos, às vezes meio destacadas;
- cria salpicada, com falhas no padrão de postura;
- operárias removendo múmias e jogando-as para fora da colmeia;
- redução de população sem outra causa evidente;
- presença de micélio branco ou acinzentado nos opérculos ou nos favos;
- cheiro úmido, de mofo, ao abrir caixas doentes.

Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. Ainda assim, quando múmias aparecem em mais de uma caixa do mesmo apiário, vale investigar umidade, ventilação e estado geral das colônias antes de qualquer outra conclusão.

Também é preciso separar ascoferiose de outros problemas. Cria falhando pode indicar rainha velha, má nutrição, [varroa](/blog/varroa-abelhas-monitoramento-controle/) alta ou [nosema](/blog/nosema-abelhas-inverno-brasil/). O erro mais caro é tratar tudo como se fosse a mesma doença, pulando a observação.

## Diagnóstico: Suspeita Não É Diagnóstico

O diagnóstico confiável de ascoferiose costuma envolver observação das múmias e, quando necessário, exame laboratorial do material. Para o apicultor, a boa notícia é que a múmia de cria de giz é bastante característica: branca, cinza ou preta, leve e friável. Quando aparecem em quantidade, a suspeita fica forte.

Ainda assim, convém confirmar com assistência técnica, associação apícola ou laboratório antes de adotar tratamentos de amplo espectro. O princípio é o mesmo da sanidade apícola em geral: registrar sinais por caixa, datas, condições climáticas, idade da rainha, estado dos favos e histórico do apiário. Esses dados sustentam qualquer decisão e evitam o improviso.

Não existe, para uso rotineiro em *Apis mellifera* no Brasil, um medicamento simples e seguro que elimine ascoferiose sem riscos para a cria, para o mel e para o consumidor. Por isso, a resposta correta diante da suspeita é manejo ambiental, não produtos aplicados por conta própria.

## Prevenção: Umidade, Ventilação e Favos Novos

A prevenção começa em três frentes: reduzir a umidade, melhorar a ventilação e manter cria sadia em favos razoavelmente novos.

**Umidade.** Caixa molhada é o principal combustível da ascoferiose. Verifique a tampa, o suporte, o local (sombra excessiva retém umidade) e o piso. Onde a chuva é forte, inclinar levemente a colmeia para a frente evita acúmulo de água. Barrer o fundo com regularidade remove detritos e múmias que continuariam soltando esporos.

**Ventilação.** Uma colmeia abafada demais no inverno não é necessariamente mais quente: o ar úmido resfria rápido à noite e cria condensação. Pequenas entradas de ar, bem protegidas, ajudam a trocar umidade sem esfriar a cria. O artigo sobre a [entrada da colmeia no inverno](/blog/entrada-colmeia-inverno-sinais/) explica como ler os sinais da entrada para decidir o quanto reduzir ou abrir.

**Favos.** Favos muito velhos acumulam esporos, cera escurecida, casulos e resíduos. Renovar parte dos favos anualmente é uma das medidas mais eficazes contra doenças de cria. O guia de [renovação de favos na colmeia](/blog/renovacao-favos-colmeia/) traz o passo a passo da troca gradual sem desorganizar o ninho.

Para meliponicultores, os cuidados são semelhantes em espírito: ninho seco, caixa protegida, ventilação controlada e higiene do material. Espécies como jataí e mandaçaia sofrem com umidade e mofo de forma diferente de *Apis*, mas o princípio da caixa seca se mantém. Veja também o guia de como [proteger colmeias de abelhas sem ferrão no frio](/blog/proteger-colmeias-abelhas-sem-ferrao-frio/).

## Colmeia Forte e Manejo de Apoio

Colmeia forte é a principal barreira contra ascoferiose. Uma colônia com boa população, rainha sadia e alimento suficiente mantém a temperatura do ninho, cuida da cria e remove larvas mortas antes que viram fonte de esporos.

Por isso, antes do inverno, vale reduzir o número de caixas fracas que vão competir por atenção. O guia sobre como [unir colmeias fracas no apiário](/blog/unir-colmeias-fracas-apiario/) mostra quando vale agrupar populações pequenas em vez de insistir em manter várias unidades que não passarão bem do período frio. Reduzir espaço em colmeia fraca também ajuda, como detalha o artigo sobre [reduzir espaço em colmeia fraca no inverno](/blog/reduzir-espaco-colmeia-fraca-inverno/).

A alimentação de apoio tem papel preventivo, mas indireto. Suplementar só faz sentido quando realmente falta alimento e a colônia tem população para consumir a oferta. O guia de [suplementação proteica para abelhas no inverno](/blog/suplementacao-proteica-abelhas-inverno/) explica quando a proteína ajuda e quando é só desperdício. Alimentar caixas fracas e úmidas, sem corrigir a causa, costuma piorar o quadro: alimento derramado e fermentado aumenta umidade e favorece mais fungos.

## Material e Quarentena

Material apícola circula doença. Favos, quadros, núcleos e caixas usadas podem carregar esporos. Em apiários pequenos, esse risco é subestimado porque a troca acontece entre conhecidos. Algumas boas práticas reduzem muito a pressão:

- não compre núcleos sem conhecer a origem sanitária;
- evite transferir favos de colônias doentes para colônias sadias;
- limpe ferramentas entre caixas suspeitas;
- mantenha caixas usadas secas, protegidas e revisadas;
- derreta ou recicle cera velha com critério;
- revise colônias suspeitas por último, para não levar esporos adiante no formão ou na luva.

A regra de revisar a caixa suspeita por último é simples e barata, e vale para ascoferiose tanto quanto para [loque americana](/blog/loque-americana-abelhas-sinais-notificacao/) e outras doenças de cria.

## O Que Não Fazer

Não trate ascoferiose com receitas caseiras, fungicidas de uso agrícola ou produtos comprados sem registro adequado para abelhas. Substâncias aplicadas dentro da colmeia podem contaminar a cera, deixar resíduos no mel, matar a cria sadia e piorar ainda mais o ambiente que a doença já explorava. Natural não significa seguro: óleos essenciais e misturas aromáticas não substituem caixa seca e favos novos.

Também não confunda limpeza agressiva com sanidade. Abrir todas as caixas no pico do frio, trocar muitos quadros de uma vez ou desmontar colônias fracas em dia úmido costuma estressar mais do que ajudar. Sanidade apícola é equilíbrio: corrigir o necessário, no momento certo, com o menor dano possível. Para escolher o momento certo de abrir, o guia de [revisão de colmeias no frio](/blog/revisao-colmeias-frio-quando-abrir/) é útil.

Não ignore o resto do apiário. Se uma caixa apresenta múmias, as vizinhas precisam de observação, porque a causa costuma ser ambiental: local úmido, vento dominante mal bloqueado ou período chuvado prolongado.

## Checklist Prático Para Junho e Julho

Use este checklist em apiários durante o período frio ou úmido:

1. Inspecione o fundo das colmeias em busca de múmias brancas, cinzas ou pretas.
2. Verifique tampa, suporte e local quanto a infiltração e acúmulo de água.
3. Avalie ventilação: a colmeia precisa trocar ar sem resfriar a cria.
4. Observe o padrão de postura e a presença de cria falhada.
5. Confira alimento e população; marque colônias fracas para decisão.
6. Planeje renovação gradual de favos velhos ou muito escuros.
7. Evite abrir caixas em dias chuvosos, ventosos ou com frente fria chegando.
8. Revise colônias suspeitas por último e limpe ferramentas entre elas.
9. Considere unir colônias fracas antes do pior período, e não manter caixas sem recuperação.
10. Registre sinais por caixa para embasar decisões e futuras conversas com assistência técnica.

## Conclusão

Ascoferiose não deve ser tratada como pânico, mas também não deve ser ignorada. Ela é mais perigosa quando passa despercebida em colônias já pressionadas por umidade, frio, favos velhos e população insuficiente. As múmias de cria de giz são um aviso concreto de que o ambiente da colmeia precisa de atenção.

O apicultor que mantém caixas secas, ventilação adequada, colônias fortes, favos renovados e registro de manejo reduz muito o risco de perdas por doenças de cria. Quando a suspeita persiste, o caminho correto é observar, confirmar com apoio técnico e agir com orientação, preservando a saúde das abelhas e a qualidade dos produtos da colmeia.

No fim, o melhor controle de ascoferiose é o mesmo princípio que sustenta uma boa apicultura de inverno: menos improviso, mais prevenção, mais caixa seca e manejo adaptado ao clima brasileiro.
